Segunda-feira, Outubro 06, 2003

OT Quê? (não podia deixar de dizer isto) 

A escola já não é o que era, aliás nada é como era... tudo muda ainda que a mudança não afecte necessariamente o que cada coisa é de facto, na sua essência, para usar uma linguagem fiosófica. Para não demorar muito: prometi a mim próprio que deveria escrever sobre a Operação Triunfo... sim o programa da RTP.
A escola e a televisão raramente se dão bem. Aliás a escola concorre com todos os dispositivos de transmissão de saberes, com todos os meios de informação directa. Basta pensar nos computadores e no modo como a nossa escola (a escola em geral) explora as suas potencialidades. Ou então nos telemóveis, que agora banimos, e um dia, muito próximo, usaremos como material escolar.
Mas por uma vez a televisão explora o modelo da escola para nos devolver o espetáculo da aprendizagem, marcado pelo glamour, pelo romantismo e pelo discurso simplificador dos media. Aquilo que a OT tem de mau... daria para outro post e agora não posso perder tempo. Aquilo que tem de bom: claramente o facto de dar a ver, de dar visibilidade, - porque antes isso não era espetáculo, nem era espetacular, - ao esforço pessoal da aprendizagem. Por uma vez a ideia de esforço, de progresso individual em virtude não apenas do acaso mas sobretudo do percurso que se realiza com determinação, aparece e é espetáculo. Já que, nos tempos que correm, só é visível o que aparece como espetáculo... Claro que há coisas horríveis, mas esta valorização por vezes histérica do esforço, da busca pessoal e da superação, que são dimensões da aprendizagem, merece alguma atenção. A diferença é que a televisão não permite que o fracasso seja um drama estritamente pessoal, vivido na intimidade (porque tudo se vê). Isso faz parte do programa, tanto como a ideia de que alguém irá triunfar no fim de todas as adversidades. Nas escolas reais, cada drama pessoal é apenas isso, uma coisa sem transcendência, sem eco, sem repercursão e sem testemunhas. Muitos de nós, professores e alunos, sabemos bem isso. E aí, ao contrário da televisão, onde até se pode falhar com muito estilo, não há romantismo nenhum. Apenas a realidade tal como ela nos confronta constantemente.

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